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Meu trabalho na frente dos senhores implica fundamentalmente em ganhar tempo aparentando alguma inteligência e apuro estético. Mas, às vezes, resolvo simplemente bancar o palhaço, como agora, com resultados sempre bastante satisfatórios. Para mim, tanto faz se banco o tolo ou o sábio, pois, quanto dos senhores, na verdade, saberiam distinguir um picadeiro de um altar?
O ator acaba por atestar a inépcia do público, corroborando com a proposta da obra, onde confunde-se também a platéia com a personificação dos senhores, caricatos e incapazes de compreender a diferença entre um truque e uma obra. As provocações do ator por vezes precedem respostas exaltadas e ríspidas. Faz parte do jogo. Alguém grita e sugere que ele imite um ator global, de preferência um tal de Caco Ciocler. O ator se sai muito bem, parece que este é o seu prêmio. Hamlet não poderia ser mais global, ao tempo que isto não poderia ser menos compreendido pelo público.
A epidemia da comédia stand-up no Brasil já deixa claro seu legado nas salas de teatro. Vê-se claramente grande parte do público com a gargalhada engatilhada para a próxima palhaçada. Ouve-se então risos nervosos da tragédia, uma maneira bem humana de lidar com a frustração. Afinal, um palhaço deveria estar lá com suas piadinhas prontas. O que deu errado? O olhar perspicaz do ator mira imediatamente os personagens a gargalhar, dispensando as palavras que seguem nas entrelinhas do seu silêncio, aliás, silêncio que incomoda demais.
Mais uma da série de peças imperdíveis que passam por aqui.
- Texto: Marcelo Pedreira.
- Direção: Roberto Alvim.
- Elenco: Caco Ciocler.
- Website: http://www.45minutos.com.br
Centro Cultural São Paulo (CCSP) Rua Vergueiro, 1.000, Paraíso. Tel. (11) 3397-4002. 5ª a sáb., às 21h; dom. às 20 h. R$ 20. Até 14/08/2011.
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